• Glauco Castro

Elas assim, eles...assados! 🤣




SÓ UM SORVETE...


- Zé Carlos, vamos passear?!!


Ele olhou meio de lado... sábado à tarde... estava tudo tranquilo... não havia planejado nada. Estava a fim de ficar na dele. Mas a esposa insistiu.


- Vamos? A gente dá uma passada no shopping... toma um sorvete.

- Mas para que ir lá no shopping para tomar sorvete? Tem uma sorveteria aqui ao lado de casa!


- Ah, não é a mesma coisa. Vamos vai... para de ser antissocial.


- Antissocial? Só porque não quero ir ao shopping?

- É.

- Bom, não acho que isso seja ser antissocial. Ó... vou não.

- Vai.

- Não vou, Bia. Não estou a fim.

- Então me dá seu cartão que eu vou sozinha mesmo, vai.


- Ok, ok... eu vou. Mas a gente vai... toma um sorvete e vem embora. Tá?

- Tá, tá, tá... vai... vamos logo... - ela sabia que o negócio era arrancar ele dali... lá... ele estaria em suas mãos.


Vinte minutos depois... lá estavam eles... procurando uma vaga.

- Está lotado, né? - disse ela, em um tom doce... tentando minimizar a situação... já estavam circulando há 15 min.

- Olha uma lá do outro lado!! - já falou para ele logo, tentando ajudar.


Deram a volta rápido, mas, ao chegar... já tinha ido.


- Eu vou para casa!

- Tá louco! Agora que estamos aqui!? Imagina! Olha ali outra. Para aqui. Eu vou lá segurar para nós!

- Tá louca! Como assim "segurar"? Olha a quantidade de gente tentando estacionar!

- Para! - e já abriu a porta, descendo do carro.


Correu em direção à vaga. Teve que ir mais rápido que uma senhora que também havia saído em disparada do outro corredor com a mesma intenção, mas aí... prevaleceu a juventude. Quando a velhinha chegou com um pulmão para fora, ela já estava lá, sorrindo gentilmente com quem diz: perdeu, vó!


Vaga encontrada. Carro estacionado. Pronto.

- Agora que começa o passeio - pensou.

- Nossa, quanta gente! - disse ele - parece que esse povo não tem o que fazer! Olha só isso!


- Vem, vem... vamos que eu quero passar em um lugar.

- Passar em um lugar? Mas não era um sorvete? Aliás, que sacrifício para tomar um sorvete!

- Depois... agora quero dar uma olhadinha naquela loja ali.


Para ele: enorme. Lotada. Gente saindo pelo ladrão.

Para ela: Linda. Cheia de novidades. Em liquidação!! Tudo de bom!!!!


Assim que entrou, já foi procurando um lugar para sentar-se. Olhou ao fundo... viu um puff. Rapidamente colocou-se em marcha naquela direção, quando viu outro cara chegando e se sentando com um ar de felicidade. Aquele puff já era.


- Meu... sabe se tem mais desses aqui - perguntou para o sortudo.

- Cara... rodei uns 10 min até achar esse aqui. Até que tem... mas já estão todos ocupados. E tudo por caras iguais a nós...ou seja... não vão sair de lá tão cedo.

- Imaginei. Bom... de qualquer forma... valeu a dica...

- Olha, eu vi um lá para aqueles lados, que foi ocupado por um senhor... porém... eu observei que ele tem algum problema de bexiga, pois vai ao banheiro toda hora. Inclusive, esse puff está perto do banheiro. Se você ficar lá por perto... de repente... consegue o lugar quando ele se levantar.

- Opa! Valeu de novo. Vou dar uma procurada.


E saiu no meio daquela multidão.


Estava difícil de andar. Tinha muita gente. De repente, esbarrou em sua mulher.

- Zé Carlos, por onde você andou? Estava te procurando. Vem cá... quero te mostrar uma coisa.

- Mas agora, Bia...? Eu estava indo ao banheiro e...

- Depois você vai. Quero teu palpite.


Na seção de tapetes, ela pega um daqueles que se coloca na porta de entrada com os simpáticos dizeres "bem-vindo". Roxo.

- E aí? O que acha?

O pavor tomou conta. Nunca acertava a resposta. Sempre tentava não opinar. Quase sempre havia uma terceira pessoa que nessa hora, enquanto ele fingia pensar, atravessava a resposta e o livrava. Ali, não ia ter jeito.

- Hum... roxo, Bia?

- Ué, Zeca... É... o que é que tem?

- Acho roxo estranho.

- Tá. E esse aqui? - era um verde claro, dizendo "welcome".

- Está em inglês.

- Eu sei. E daí?

- Não somos ingleses nem americanos.

- Oh... não diga! Sério? .... Deixa disso.. hoje em dia todo mundo entende inglês! E outra... quem não sabe que welcome é bem-vindo?

- A questão não é essa. Por que colocar um tapete na porta de casa em inglês? Com tantos aí escritos bem-vindo? Não gosto desse negócio de ficar usando termos em outros idiomas só para se sentir parte da globalização.

- Tá, tá, tá... e esse?

- Esse tá em japonês. De repente nem é bem-vindo que está escrito. O que você tem contra a nossa língua, afinal de contas?

- Tááá!!! E esse!!!? Está escrito BEM-VINDO, bem grande!

- Cor de rosa?

- Não é "cor de rosa". É só rosa! Tá, tá, tá... caramba... difícil, hein?

- E o sorvete?

- Que sorvete?

- Bia, viemos para tomar um sorvete. Não?

- Ah, sim, sim... claro, mas agora vamos resolver sobre o tapete. E depois tomamos o sorvete. Escolhe um.

- Eeeu!?

- Sim. Vocêêêê! O que é que tem? Afinal, a casa também é sua!

- Olha... por mim... eu não levava esse tapete. A gente entra em casa geralmente pela garagem... nem passa pela porta da frente... e quando passa, sempre estamos olhando para a fechadura, para abrir a porta... nem vamos olhar para o chão, então, para que...

- Peloamordedeus, José Carlos! Nossa! Deixa que eu escolho o tapete... vai... vai andar pela loja que já, já vamos lá tomar o sorvete.


Uma vez liberado da árdua missão, retomou seu objetivo: o puff do banheiro.

Levou uns 5 minutos para encontrar o banheiro... não deu outra... o cara estava certo... lá estava o puff. E sobre ele, um senhor, já com o semblante desesperador... - é cara de apertado - pensou. E ficou ali, rondando. Pronto para dar o bote.


Dez minutos se passaram. Nada da sua mulher. E nada do véinho levantar-se.

De repente... percebeu que ele começou a se mexer no puff... - não tarda!! - pensou... - ahá... tá perto!!


- Zeca, Zé Carloooos...!! Amooor....!!

- Hã? - olhou para o lado. Bia vinha em sua direção com um tapetinho azul.

- O que acha? - ainda deu tempo dele voltar o olhar para o puff... ver o velhinho correr para o banheiro, e outro camarada se atirar para sentar-se rápido como uma flecha no bendito. Perdeu de novo. Desistiu. Sua sina ali era ficar em pé, circulando...

- Oi, Bia - respondeu desanimado...

- O que você acha desse aqui? Olha... parece perfeito e... credo! Que cara! O que foi?

- Nada... perdi a disputa pelo puff!

- Hã?

- Deixa pra lá. Diga. Ah, esse? Concordo!! Perfeito!! E sem nada escrito!!?? Legal! Gostei!!

- É. Resolvi simplificar a escolha.

- Legal!

- Agora só preciso escolher uns pratos novos e...

- ... Sério???!!

- Calma... tô brincando...- e sorriu - isso eu faço outra hora, vai. Agora.. o sorvete.... - E saíram de mãos dadas deixando a loja lotada para trás.


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