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  • Glauco Castro

o que ela não contava - 1

Atualizado: 3 de mai.


Capítulo 1


Eram onze horas quando Shirley deixou o consultório.

A clínica ficava na calma rua de um bairro residencial. Consultórios particulares eram comuns ali, logo, homens e mulheres saindo das casas não eram vistos de forma suspeita.

Ela chegara às oito horas, para a consulta das nove. Preferia chegar adiantada, sempre. “Para não correr o risco de perder compromissos”, justificava.

Já frequentava a clínica, referência na área ginecológica, há quatro anos. Seu corpo clínico era nacionalmente reconhecido.

Sempre com a mesma médica, Dra. Maria Alice. Tornaram-se amigas, mas agora ela se mudara em função de um doutorado no exterior, e seria um novo colega indicado pela Dra., que a atenderia. Sentia-se um pouco inquieta pois acostumara-se com Maria Alice, a forma como conduzia os exames e a delicadeza de seu toque.

Sentiu-se aliviada, de certa forma, quando a consulta terminara após trinta minutos. Não foi tão ruim assim. Na verdade sentiu-se bem à vontade na presença do novo médico. Faria alguns exames mais e estaria liberada.


* * *


Apressado para não se atrasar à primeira cirurgia do dia, agendada para às sete horas, Dr. Nelson esgueirava-se entre os pacientes no corredor do maior e renomado hospital da cidade. Reconhecido neurocirurgião, várias personalidades já haviam passado por suas mãos. Seus casos normalmente eram concluídos com grande sucesso e repercussão na mídia devido à complexidade, a todo momento era chamado para dar sua opinião em programas na TV, poderia se considerar um profissional de prestígio e respeitado. E pontualidade era algo que prezava muito “- Não sei qual a desculpa meus colegas dão para não manter os horários de suas consultas!” – sempre afirmava indignado, sobre a prática comum entre os médicos.

Posto isso, quando entrou no centro cirúrgico pronto para dar início à cirurgia assim como orientações à sua equipe, tinha pressa. Tudo precisava ser concluído em três horas, para dar tempo de comparecer ao seu próximo compromisso.


* * *


- E aí, Thay, mais um café, suco... mais um pãozinho na chapa?

- Não, obrigada. Tô exausta! A noite foi puxada e vou para casa descansar. Preciso chegar lá no máximo em uma hora. Até amanhã, querida!

A vida de Thalita, a exemplo de outros travestis, não era nada fácil. Dançava na noite, não ganhava bem. Para aumentar os ganhos, saía com clientes, fazia programas. Nada mais clichê, mas o que a mantinha firme nessa rotina era o desejo de “- Melhorar de vida”, dizia.

Tentou estudar de manhã, não conseguiu. Chegava sempre cansada e dormia em sala de aula. Passou para a noite. Faltava muito devido a preparação de coreografia para a noite, não conseguia acompanhar os colegas de sala. Interrompeu e não voltou mais. “- Ainda!” – costumava dizer.

Porém, agora, só queria ir para casa descansar.


* * *


Preso no engarrafamento há 45 min, André tratava de avisar aos outros participantes que chegaria atrasado à reunião das nove horas.

Rotina que ele mesmo, como um dos sócios, implementara, a primeira reunião do dia era de suma importância para que as atividades da empresa especializada em prestação de serviços fluíssem bem e isso, ele sabia melhor que ninguém, significava clientes satisfeitos. Porém, bem aquele dia, pelo contratempo que teve em casa, atrasara a saída e pegou o horário de pico no trânsito. Não havia muito o que fazer.

E a cada minuto que ficava a mais no engarrafamento, pensava como aquela discussão com Maria Fernanda foi sem sentido. “O que ela quer mais?” – não parava de se perguntar.

Moravam em um bom apartamento, em um bom bairro, as duas filhas estavam em uma boa escola. Ele bancava as contas da casa, mensalmente dava a ela uma quantia que gostava de chamar de mesada, nome que ela não aprovava, saíam, transavam, viajavam, enfim, o que faltava? “Eu praticamente vivo para minha família!”.

Ao fazer essas reflexões, porém, sempre ignorava outros pontos, como o fato de que se as coisas não saíssem como ele desejava, o clima em casa era outro. Filho único, sempre teve toda a atenção dos pais. A mãe o via como um príncipe, lindo, inteligente, coisa que a maioria das mães veem em seus rebentos, mas ia além, pensando não ter ainda conhecido mulher à altura para seu menino. Logo, Maria Fernanda passava por algumas situações com a sogra nada agradáveis.

Também ignorava o fato de ir e vir quando bem entendia, não vendo como necessidade dar satisfações à esposa, o que não era recíproco. Maria Fernanda precisava a todo momento dizer onde estava e o que ia fazer.

“Para eu saber onde você estará caso algo aconteça” justificava-se. No fundo, ambos sabiam que era uma questão de confiança e insegurança. Dele.

Os pensamentos dissiparam-se quando percebeu que estava chegando na empresa. Agora era pensar na reunião e ver como aquela equipe fraca que tinha conseguiria entregar as metas que ele havia determinado no início do ano. E seis meses já haviam se passado. Precisava fazer alguma coisa mais drástica.


* * *


Maria Fernanda ainda não estava totalmente recuperada da discussão do início da manhã.

Ela era forte, mas também sensível, emocional, não gostava de se sentir reprimida. No entanto, a cada vez que defendia sua opinião ou questionava algo, sofria as consequências pela mudança que isso causava no clima entre ela e André.

Com o tempo, inteligente que era e principalmente por amá-lo muito, foi se calando, aceitando o que ouvia e sem perceber era outra pessoa. Sentia-se feliz, porém sempre se perguntava se não poderia ser de outra forma, se não havia mesmo outro jeito de ser feliz, como já era, mas vivendo de maneira mais leve, sendo, quem sabe, ela mesma, como antes, e sem causar tanto desgaste quando tentava expressar o que pensava. Como não tinha as respostas e acreditava piamente em seu amor por André, abstraiu-se, ao longo dos 10 anos de casamento, de permanecer nessa busca. E aceitou que da forma que as coisas eram, era a melhor forma de seguir em frente. Afinal, era feliz.

E apesar de não ter se recomposto da briga da manhã, mais uma, optou em tocar o dia como havia programado. Depois que deixara o emprego no banco, onde parecia ter uma carreira promissora, para assumir seu papel de esposa e mãe, estava determinada a fazer essa mudança valer a pena. E esquecer de algumas situações do passado. Um dia de cada vez, era o lema que repetia como um mantra para se manter firme em seu propósito.


* * *


Alex desta vez saía do consultório de sua terapeuta convicto que potencializava as situações que ocorriam em seu relacionamento com Shirley sem ter necessidade.

Era assim. Sempre terminava a sessão confiante, otimista e com foco no futuro. “As coisas melhorarão, ela está se esforçando e irá mudar!” – era o que gostava de pensar. Porém não via no dia a dia essa atitude na esposa, precisando constantemente de suas sessões de terapia para retomar o rumo novamente.

“Por que ela faz assim? Por que não consegue se abrir totalmente comigo?” – eram algumas das perguntas que martelavam diariamente sua cabeça. Sempre que procurava respostas observando Shirley, saía magoado. Já havia pensado em separação, mas a amava muito. Por consequência, ela o machucava muito com seu comportamento.

Decidiu, como das outras vezes, acreditar em sua resiliência e aguardar tudo ficar melhor. Foi assim que retornou ao trabalho, à tarde.


* * *


Shirley ficara na clínica até onze horas, os exames não duraram mais que uma hora e meia. Era dez e quarenta e cinco quando o celular tocou. Ansiosa, atendeu enquanto esperava na recepção. Foi o tempo de ir ao banheiro, trocar sua lingerie bege por uma preta, sensual, retocar a maquiagem, batom e deixar o local. Não queria se atrasar. Muito menos andar depressa e transpirar. Três quarteirões no sol a separavam da cafeteria, seu próximo destino. Logo, caminhava de forma compassada, mas devagar, premeditando o que a esperava. Precisava disso. Desse sentimento, dessa sensação de ir em direção a algo que não era permitido.

Já tentara mais de uma vez dar um basta nesse desejo que não sabia explicar e não fazia bem ao seu relacionamento com Alex, mas era algo mais forte que ela. Não podia controlar. Normalmente eram três passos bem definidos. Sentia-se atraída, provocava, fazia. Simples assim. Incontrolável, inconsequente, irresponsável. Nesse momento, não pensava no marido. O desejo de sexo falava mais alto. Suas pernas bambeavam, seu batimento acelerava só de preceder o momento. Não necessariamente com alguém que conhecia. Mas sim com quem ela escolhia. Uma vez escolhido, estava decidido que aconteceria. Como e quando, era conforme o quanto ela desejaria brincar com o alvo. Revitalizava-se com isso. E não pensava nos danos que poderia causar. Fazia. Queria, decidia e fazia. Só isso.


* * *


A tarde estava quente, trinta e sete graus, quando Teca deixou o fórum. A audiência não saíra como esperava. Através da ação que moveu contra o estado, pretendia levantar recursos para manter e até mesmo aumentar o seu canil que recolhia cães e gatos abandonados nas ruas. Uma indenização ajudaria a continuar em seu propósito na boa causa. Dispunha de tempo, desde que se afastou do trabalho, há dois anos. Há três já pegava um ou outro animal na rua. Levava para sua casa, alimentava-os, tentava encontrar outro lar para os bichinhos solitários através de seu perfil nas redes sociais. No entanto a casa, por mais espaço que possuísse, ficou pequena quando atingiu 25 animais, entre cães e gatos. Foi quando teve a ideia de fundar a ONG.

Sempre foi ligada às causas sociais. Seu perfil zen, levava a ser chamada carinhosamente de riponga pelos seus amigos. As drogas foram por muitos anos seu caminho de libertação e a encorajava a estar em lugares que não iria normalmente. E a dizer coisas que não dizia normalmente, também. Consequentemente, a receber certos tipos de tratamentos que também não eram bons, normalmente. Seu perfil independente e sua forma de pensar livremente, algumas vezes lhe causou problemas.


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