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  • Glauco Castro

o que ela não contava - 2



Capítulo 2


Ao chegar na cafeteria próxima à clínica, Shirley estava agitada. Era comum quanto precedia um encontro. O inesperado a deixava excitada. Sentia-se provocada por esse frenesi. Geralmente eram combinados pelas redes sociais. Um papo despretensioso iniciava-se, perguntas de praxe, troca de fotos e então sempre se direcionavam ao erótico.

Desta vez não foi diferente. O requisito inicial sempre era o mesmo: a aparência. A beleza. Corpo, rosto precisavam agradá-la. Fazê-la sentir calor, curiosa. Pronto. Escolhido e percebido essa afinidade fugaz, era só combinar data, local e horário.

Por isso quando, já sentada à mesa e tomando um suco, sentiu uma mão sobre seu ombro, virou-se sorrindo e não conseguiu disfarçar sua decepção.

- Alex??

- Oi, amor! Tudo bem? O que faz aqui?

Ela, friamente, controlando o nervosismo que tomou conta, respondeu que decidiu tomar um café antes de chamar o Uber.

- Mas está longe da clínica. Está tudo bem? – ele a conhecia o suficiente para se por alerta à situação. Acabara de sair da sessão de terapia e parece que foi colocado à prova para praticar o que discutiu com sua psicóloga.

- Sim, está. E você, o que faz por aqui? – respondeu enquanto seu olhar corria o local para ver se o motivo por estar ali não havia chegado.

Esse era um cuidado que tomava. Não usava suas fotos. Sempre era ela quem identificava quem a encontraria, não o contrário. Pedia o nome, cores e tipos de roupas que usariam, mas nunca fornecia informações que permitiram ser identificada primeiro. Aquele dia não foi diferente e por isso pode constatar quando o homem que sairia entrou e se sentou a uma mesa não muito longe da sua.

- Tenho uma reunião ali, respondeu Alex apontando para uma empresa em frente. Mas ela já não prestava muito atenção em suas palavras. Só precisava sair dali o quanto antes, pois sentia-se extremamente atraída pelo homem. Mais que durante suas conversas e sabia que isso a entregaria. Ainda mais Alex, que a conhecia muito bem.

Tomou rapidamente o que restava do suco, chamou o Uber, despediu-se com um beijo rápido no marido e foi embora.

Não foi dessa vez, pensou. No caminho de volta, enviou uma mensagem dizendo ao objeto de seu desejo que não compareceria ao encontro por ter acordado indisposta.

Por sua vez, Alex de certa forma havia pressentido algo. Aquelas situações em que ele se sentia impotente e o deixava tão triste.

- Que eu consiga dar uma solução a isso, seja qual for – pensou. E foi para sua reunião.


* * *


Maria Fernanda cumprira sua agenda inicial do dia. Crianças na escola, orientações à sua ajudante doméstica, yoga.

Bem diferente da rotina frenética do banco, atuando como gerente de investimento de grandes contas, mantinha contato com os mais diversos perfis de profissionais, geralmente bem-sucedidos e lhe proporcionavam permanecer conectada ao mercado, inserida no ambiente corporativo. Um sentimento que se desenvolvia e avançava.

Quando engravidou foram muitas e diversas as abordagens e opiniões de suas amigas e familiares.

- Não deixe de trabalhar!

- Deixe de trabalhar, cuide você mesma de sua filha pois esse tempo não volta mais!

- A maternidade é algo único e nenhum trabalho ou carreira substituirá esse sentimento!

Entre outras chamadas apelativas. Tudo mentira, tudo verdade, percebeu após alguns meses.

O incentivo de André e a segurança que sentia nele, impactou forte em sua decisão de pedir demissão no banco e dedicar-se totalmente à família.

Agora, isso começava a parecer que não foi o melhor caminho.

Por um tempo tudo correu bem. O entusiasmo com a nova rotina, ter mais tempo para cuidar de si, depois do nascimento da primeira filha todo aquele inebriante sentimento de perpetuação, do amor ímpar a um ser, enfim, foi uma boa mudança, pensou.

Resolveram, juntos, ter mais um filho e após o nascimento da segunda filha, idem. Tudo empolgante, as meninas eram a alegria da sua vida. André cumpriu com seu papel e com o que havia prometido. Pai atencioso, profissional dedicado e, apesar da ausência devido ao trabalho, tudo era como esperava.

Sentia-se um pouco fútil, sim. Às vezes. Mas quando este pensamento surgia, olhar para suas filhas, um jantar mais elaborado e um vinho, eram suficientes para adormecê-lo.

O que ela não contava era com a mudança de comportamento de André. E isso ocorria com uma velocidade mais que conseguia processar.

Consequentemente ao passar dos anos sentia-se infeliz, com um vazio que não se preenchia mais com a rotina atual.

Nem percebeu que chegara à casa de Irma, sua mãe. Deu-se conta que dirigiu até lá no automático, tomada pelos pensamentos e questionamentos que tanto a incomodavam.

Bem, agora é mudar o chip e curtir o passeio” – pois iriam ao shopping. Ficou aliviada, pois conversar com a mãe seria uma forma de descarregar um pouco desta tensão.


* * *


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